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Conhecer, entender e recomeçar: uma visão sobre o evento Startup Weekend

Para emocionar é preciso primeiro se emocionar – e resistir

O mundo do empreendedorismo é bastante agitado. Valores, mercado, consumidores, clientes, produtos e tantas outras peças-chave definem o trabalho complexo que é empreender.

O Startup Weekend é um evento apoiado pelo Google, e tem como principal objetivo conectar estudantes e profissionais ao cenário empreendedor. Busca, em resumo, reunir designers, desenvolvedores, makers e empreendedores, a fim de que, durante 54 horas, possam elaborar um projeto consistente, a partir de uma ideia de startup inovadora, e, assim, avaliar sua viabilidade.

Neste artigo, busco refletir sobre a minha experiência e visão perante a minha participação no evento realizado na Universidade do Estado de Santa Catarina – Udesc, em Joinville – SC.

Meu intuito não é explicar o funcionamento do evento, mas, sim, listar os aprendizados que obtive durante o processo. Se você quiser conhecer com mais detalhes como tudo funciona, clique aqui.

Estrutura

Imagine ter a responsabilidade de estruturar uma empresa, fundamentar uma ideia, validá-la, torná-la viável economicamente e apresentá-la, tudo em três dias. Esta é a tarefa de quem participa do evento.

Tudo tem de ser muito rápido. O processo, basicamente, ocorre da seguinte maneira:

  1. Pitch* de ideias (1º dia): os participantes apresentam, em 1 minuto, suas ideias;
  2. Escolha das ideias por votação individual: cada participante pode votar nas três ideias que mais o agradaram (1º dia);
  3. Escolha dos grupos: em um momento de pausa, cada participante vai atrás de um grupo (1º dia);
  4. Mão na massa: ideia, pesquisa, validação, prototipagem e testes (2º-3º dia);
  5. Pitch final (3º dia).

A seguir, listo as três principais considerações com relação ao evento.


Segure a ansiedade e, sim, vai ter muita pressão

Sem dúvidas, a ansiedade é evidente em cada indivíduo. Rostos com feições aflitas, pernas balançando, contínuo movimento das mãos… comportamentos comuns de um corpo carregado de tensão.

A pressão sobre o grupo é bastante intensa. Cada um tem uma função específica. Existe uma ideia e a missão é fazê-la acontecer. Inicialmente, todos trabalham na pesquisa, não importa a sua especialidade, pois a ideia precisa ganhar corpo e consistência. São pessoas diferentes, mas com os mesmos objetivos.

Meu grupo ficou incumbido de apresentar um projeto voltado aos deficientes auditivos. O objetivo era desenvolver um dispositivo capaz de traduzir a Linguagem de Sinais Brasileira — Libras para o português. Uma tarefa difícil, devo dizer, dada a demanda de recursos para a aplicação. Nós somente perceberíamos isso mais tarde, infelizmente.

Não se apaixone demais pela ideia — crie alternativas

Parece uma afirmação louca e totalmente incoerente. Como eu não devo me apaixonar pela ideia?

Sim, você deve ter paixão por aquilo que faz e desenvolve, mas não se esqueça de ter um pensamento mais racional — você está trabalhando com o mercado, não se deixe levar pela emoção. Se você se apaixonar demais pela ideia, você vai se apegar e ignorar outras possibilidades de trabalho.

No caso da minha equipe, os olhos brilharam em razão da temática do trabalho.

Infelizmente, projetos sociais, principalmente quando envolvem algum tipo de deficiência, carecem de mais recursos, o que resulta em um alto investimento.

Conseguimos contatar pessoas que tinham o envolvimento com o nosso público-alvo. Por meio de uma delas, tivemos a rica e emocionante experiência de poder conversar de perto com 9 indivíduos surdos — pode soar preconceituoso este termo, mas para esses indivíduos, ‘deficiência auditiva’ tem sentido mais ofensivo. Coletamos informações valiosas, além de concluir a tarefa principal: validar a ideia.

Momento de interação entre o grupo e os deficientes auditivos

Contudo, após voltarmos à mesa para analisarmos as informações, com a ajuda dos mentores, percebemos a inviabilidade financeira do projeto. Devo dizer que esta foi uma conclusão frustrante, dada toda a nossa determinação inicial. Porém, claro, também aprendemos com isso. Paixão demais vira obsessão, e isso não é saudável.

Recomece se for preciso

Tínhamos tudo para desistir. A ideia não deu certo e o cansaço tomava conta dos nossos corpos. A mente parecia esgotada, fora a decepção de abandonar um projeto de grande valor.

No último dia, com um prazo curto para a finalização, decidimos seguir em frente.

Estávamos no local às 8h, com olhares não muito animadores, mas com um pouco de esperança.

Ideias foram lançadas, e uma delas pareceu agradar a maioria. Foi, então, escolhida e trabalhada. Desta vez, tínhamos em mãos um projeto voltado aos usuários de automóveis que apresentavam falta de confiança para com os mecânicos, além da falta de tempo para a manutenção do carro.

O processo fluiu. Estruturamos todo o plano de negócios novamente, formulamos um questionário, aplicamos a pesquisa, validamos, desenvolvemos o protótipo e apresentamos. Não conquistamos as três principais colocações, todavia, levamos conosco uma experiência enriquecedora. Tanto prática quanto emocional.

Obviamente, este é um processo que comumente acontece no campo do empreendedorismo. Resiliência para enfrentar os intempéries é imprescindível para manter uma base sólida e, sobretudo, a manutenção do negócio.


Considerações finais

Apesar de toda a correria, o Startup Weekend é um evento que mostra a realidade para quem deseja empreender. É preciso ter foco e resistência para não desmoronar. Se isso acontecer, erga-se e tenha coragem de recomeçar.

Com relação ao público do evento, percebi que esta é, ainda, uma área dominada por homens – inclusive os jurados e boa parte da equipe de organização. Em contrapartida, fiquei feliz ao ver projetos de cunho social tão pertinentes.

Levo comigo a experiência de ter contribuído para a expansão de novas ideias e a coragem de ter recomeçado, e, ainda assim, construir um projeto interessante.


*Pitch é uma apresentação rápida, como forma de sintetizar uma ideia de projeto aos investidores.

* A opinião do autor não reflete necessariamente o posicionamento do Design Conceitual.

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