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Por que ainda somos designers egoístas

O que é efetivamente design? O que implica ao seu profissional desenvolver? Seja na academia ou no mercado de trabalho, você, muito provavelmente, já se deparou com tais questionamentos. O que sabemos com muita certeza é que definitivamente design não é arte, mas se apropria de elementos dela.

Para entendermos a figura do designer na sociedade, precisamos analisar o que ocorreu ao longo da história e como o design como conhecemos hoje se estabeleceu.

Carisma x funcionalidade

Algo muito latente no campo do design diz respeito à sua identidade. Para alguns profissionais e estudiosos, o design é levado como algo quase que divinal, por apresentar características estéticas que parecem transcender a realidade. Herdamos isso do passado, em um período em que as obras eram entendidas como representação do sagrado, ligadas fortemente à natureza religiosa.

Essa vertente é também chamada de carismática. Alberto Cipiniuk, em seu livro Design: o livros dos porquês, argumenta que “um objeto carismático (…) se define por possuir uma qualidade especial, um valor que o diferencia”. É o tal objeto de desejo que tanto se comenta, que traz o encanto e, obviamente, o lucro como consequência.

Espremedor de frutas, de Philippe Starck, um claro exemplo de produto carismático. Fonte: dezeen.com

Por outro lado, encontramos uma visão mais racional da área. Esta, por sua vez, é regida por instruções, princípios e regras. Aqui, vemos claramente o embasamento em um lema trabalhado fortemente na Bauhaus (uma escola de design alemã que funcionou entre 1919 a 1933): a forma segue a função. É a linguagem mais técnica do campo — e é também a mais próxima da área científica. Cipiniuk dialoga que “de acordo com os funcionalistas, a beleza para ser produzida precisa de normas”.

O que vemos, portanto, é que uma vertente é mais pragmática, enquanto a outra é idealista. Contudo, parafraseando Cipiniuk, ambas se esquecem muitas vezes de olhar para o contexto social, para as reais necessidades e acabam por se prender apenas aos seus conceitos e particularidades. Adrian Forty, em seu livro Objetos de Desejo também comenta sobre esta dualidade: “a aparência das coisas é, no sentido mais amplo, uma consequência das condições de sua produção”. Ele também diz que falar de design é também falar sobre a história da sociedade, pois assim como a área pode influenciar a cultura, o contrário também pode ocorrer.

A sociedade e seus recursos

O que ocorre, de modo geral, é que existe em ambas as noções uma visão equivocada sobre o resultado de um produto. O nome do designer e/ou empresa que o produziu sempre se sobressai. Forty explicita que em toda a história do design sempre houve e ainda há uma tentativa de associar a construção de qualquer produto por meio de uma ideia, teoria ou até mesmo a carreira de um profissional.

Quando fazemos isso, infelizmente, muitas vezes esquecemo-nos de olhar para o contexto histórico social vigente. A economia pode influenciar consideravelmente no desenvolvimento de qualquer material. Em uma época, por exemplo, tendia-se a usar na pintura apenas determinadas cores, isso porque estas eram as restrições da época, seja por demanda ou escassez.

Fusca, da Wolksvagem, um clássico exemplo da visão funcionalista. Fonte: autos.culturamix.com

Antes de agregar qualquer valor a um produto, vale uma reflexão e, principalmente, um estudo social importante. Nós, designers, costumamos encarar nossa percepção como única e inata, como uma espécie de talento, dom, ou um conhecimento intrínseco. Ao analisar um produto é interessante compreender o porquê dos materiais utilizados, em que contexto foi construído e, especialmente, o seu propósito.

Nada é porque um designer quis — seja de modo carismático ou funcionalista. Há sempre uma boa história por trás de um objeto, ligada intimamente à economia, à política, à tecnologia e à cultura vigente. Janet Wolff, em seu livro A Produção Social da Arte diz que “tudo o que fazemos está localizado em estruturas sociais, e, portanto, é afetado por elas”.

Ainda trabalhamos de modo segmentado, que surgiu na idade moderna, com a divisão de funções. A contemporaneidade, período em que estamos situados, tem como paradigma uma visão mais aberta, sistêmica e ecológica. Precisamos analisar o todo para compreender as partes.

Caminhamos para um futuro de compartilhamento. Mais se ouvirá sobre serviços e pouco sobre a compra de produtos físicos. Para exemplificar, podemos citar dois serviços bastante comentados ultimamente: o Uber e AirBnB. Isso também atingirá os processos de criação, no quais o trabalho colaborativo será fundamental. Assim vai se construindo o futuro, sem um único autor, mas com colaboração.

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Referências bibliográficas

CIPINIUK, Alberto. Design: o livros dos porquês: o campo o design compreendido como produção social. 2014.

FORTY, Adrian. Objetos de Desejo: design e sociedade desde 1750. 2007. 

WOLFF, Janet. A Produção Social da Arte. 1982.

 

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