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Design gráfico inclusivo no livro “Adélia”

A designer gráfica Wanda Gomes é pioneira no “design gráfico inclusivo” no Brasil há mais de 10 anos. Autora da Coleção “Adélia”, em parceria com Lia Zatz e a ilustradora Luise Weiss, a coleção já conta com 3 títulos: “Adélia Cozinheira” (2009/2010), “Adélia Esquecida” e “Adélia Sonhadora” (2011/2012), totalizando a tiragem de 9 mil exemplares.

Capa do livro "Adelia Cozinheira"

Livro Adélia Cozinheira da Coleção Adélia

 

A coleção é inclusiva, pois é dirigida para todas as crianças e não apenas para crianças deficientes visuais. Para essa coleção, a designer Wanda Gomes criou um inovador sistema de impressão em Braille, o sistema Braille. BR® (foto abaixo)

Impressão em BrailleBR

Impressão em BrailleBR (Reprodução).

A impressão offset combinada com o Braille.BR®, permite uma imersão total na leitura, tanto para crianças e familiares com deficiência visual ou não. Além disso, conta com uma impressão especial de texturas, relevos e aromas, diferenciando enormemente os livros de outras impressões em Braille tradicionais.

Sucesso no Brasil, a coleção procura novos mercados internacionais, em especial, o mercado latino-americano nos Estados Unidos e os países de língua espanhola.

A designer já participou de dois eventos internacionais ligados à produção cultural, na Argentina e Colômbia, e duas vezes da Feira Internacional do Livro de Guadalajara, México, onde a versão em português foi um sucesso e chamou a atenção de editoras em espanhol.

Agora, para chegar a esse mercado, ela lança a campanha “Adélia cozinheira” no Catarse, site brasileiro de financiamento coletivo, esperando arrecadar o valor necessário para imprimir 500 exemplares em espanhol, para levar a duas feiras internacionais de livros, para as quais já foi convidada.

Na entrevista abaixo ela explica melhor todo o caminho percorrido como “designer gráfica inclusiva” e explica o motivo do design ter um papel fundamental para uma sociedade mais inclusiva.

Designer

Designer Gráfica Inclusiva Wanda Gomes (Reprodução).

Wanda, fale de sua formação profissional?

Graduação pela FAAP – Fundação Armando Álvares Penteado em Desenho Industrial, 1979; Pós-graduação em Design Gráfico pelo Centro Universitário Senac, 2008; 10.000 Mulheres: Empreendedorismo e Novos Negócios, FGV/ IE Business School, 2013; Programa de Capacitação em Gestão de Projetos e Empreendimentos Criativos – MinC / Senac, 2015.

Como chegou ao campo do design gráfico inclusivo?

Ainda estudante de design, sempre me intrigava a pouca atenção dada ao público com deficiência visual. Acredito que, apesar de sempre ter trabalhado na área do design gráfico, a minha formação em desenho industrial tenha colaborado bastante no sentido de enxergar a atividade “projetual” em toda a sua amplitude qualquer que fosse o projeto, um cartão de visita ou um livro.

O que quero dizer é que é impossível um bom resultado de projeto sem conhecer profundamente o público ao qual se destina, identificando suas reais necessidades, e depois passando por uma pesquisa de materiais, processos de fabricação e análise de custos. Na prática, acredito que hoje estejamos mais alinhados nesse sentido, mas já na década de 70, grandes mestres já nos acenavam com visões diferenciadas como Gui Bonsieppe, Alexandre Wollner, Aloisio de Magalhães e outros, inclusive, claro, a própria escola Bauhaus.

Acredito que beber dessas fontes inspiradoras e o interesse pelo design gráfico e os processos de fabricação gráfica relacionados me levaram a perceber o público com deficiência visual de uma maneira mais cuidadosa  e constatar a mais absoluta carência de atenção que os cercava (e ainda cerca!), em termos de produtos, serviços e modelos de negócios a eles dirigidos e da falta dos meios adequados de acesso à cultura e à educação. Se fala muito em direitos, mas muito pouco se faz no sentido efetivo de mudança, de sua condição como dependente na sociedade em todos os sentidos.

O que levou você a criar os livros da coleção “Adélia – Adélia Cozinheira”, “Adélia Esquecida” e “Adélia Sonhadora”?

Em primeiro lugar, tenho a mais firme convicção de que livros têm a capacidade intrínseca de promover mudanças, sendo o conhecimento, o acesso à cultura e a educação fundamentais para esses primeiros passos e para a quebra de comportamentos arraigados da sociedade.

Como já disse antes, me incomodava que se fizesse tão pouco pelo público com deficiência visual. Como dizer que todos têm direitos se não se oferecem os meios de acesso? Por que no curso de design não se dava atenção às pessoas cegas ou com qualquer tipo de deficiência? Como designer conhecemos as ferramentas, os processos, os materiais, então por que não criar produtos para esse público?

A visão do design como ferramenta para a mudança e a vontade de realizar algo nessa direção nunca me abandonaram e de maneira autônoma e até meio que intuitiva, estava sempre pesquisando tentando entender o mundo da pessoa cega. Até que em 1998, mais ou menos, mostrei algumas iniciativas e ideias para Marta Gil (socióloga, pesquisadora e consultora na área de Inclusão de Pessoas com Deficiência), apoiadora entusiasta, ela me apresentou a escritora Lia Zatz que também já tinha interesse similar e trouxemos ao grupo a artista e ilustradora Luise Weiss. Juntamos-nos e no início, a ideia era produzir um livro ilustrado para crianças cegas.

Na medida em que, como designer, me aprofundava nas questões específicas do público, fui entendendo que suas necessidades iam muito além do livro em braille, pura e simplesmente. O sentido da palavra INCLUSÃO já se apresentava como obrigatório e era muito mais amplo do que até então se falava e a palavra que se utilizava era “integração”. No ano 2000, porém, pouco se discutia, pouca bibliografia existia e ainda se trabalhava a realidade da pessoa com deficiência através do modelo médico que se baseava em princípios de cuidado, cura e bem-estar e não do modelo social que tira o foco da limitação ou da deficiência em si, colocando a responsabilidade de identificar e realizar mudanças, removendo barreiras e ampliando o acesso, na sociedade como um todo: governo, instituições, empresas e nas próprias pessoas.

Explique melhor como o sistema de impressão Braille.BR® inventado por você, faz a coleção Adélia ser única no mundo?

Com mais de 10 anos dedicados à pesquisa e desenvolvimento, a coleção de livros infantis “Adélia” é um exemplo de como a serigrafia continua sendo uma técnica fundamental em nossas vidas e que jamais deixará de existir apesar de toda a tecnologia digital hoje em dia.

Os livros apresentam ilustrações com texturas, relevos, aromas e todo o texto, em escrita alfabética, conta também com sua versão em Braille.BR® feita através de serigrafia com verniz, de modo que não atrapalha a leitura convencional.

Desde a concepção, todos os itens de projeto foram pensados com o objetivo de serem acessíveis.  O desenvolvimento do projeto de design incluiu estudos aprofundados desde uma diagramação específica, estudo de cores e contrastes, pesquisa sobre fontes tipográficas, os próprios recursos gráficos que incluem o offset e a serigrafia. Tomando partido da técnica serigráfica, como importante ferramenta de acessibilidade tátil, utilizamos vários tipos de combinação de desenho e de composição do verniz para produzir os diferentes tipos de texturas e alto relevo nas ilustrações. Utilizamos também recursos de impressão serigráfica com aromas, para isso foram desenvolvidos seis tipos diferentes: floral, fruta, couro, mato, chocolate e bebê.

Esse novo tipo de Braille em serigrafia que desenvolvemos com o apoio técnico de parceiros gráficos além de permitir a leitura convencional, apresenta a vantagem de não furar o papel, alta qualidade com uma combinação perfeita com a impressão offset, permitindo grandes tiragens e tem validade indeterminada, já que os pontos não cedem à pressão dos dedos, como no Braille convencional.

Para você qual seria o papel do design gráfico para a inclusão?

Entendo que o design tem papel preponderante no rompimento de paradigmas. Com o conhecimento de ferramentas, processos e materiais, o designer deve contribuir para a melhoria na qualidade de vida e na formação do indivíduo autônomo, independente e consciente de seu lugar no mundo como é de direito da pessoa com deficiência.

Há muito que conhecer a respeito da pessoa com deficiência e com relação especialmente a pessoa com deficiência visual, sobre a construção de seu sistema de significação, experiências sensório-motoras e a construção da leitura e escrita; e ainda, temos que salientar que muito pouco se progrediu em termos de tecnologia em sistemas de impressão braille.

É obrigação e papel do designer identificar, conhecer e desvendar os mistérios desse universo presente mas ainda invisível e aliar esses conhecimentos à busca de meios tecnológicos adequados para então desenvolver produtos, serviços e negócios que melhorem, transformem os meios de acesso à cultura e a educação, criando os meios inclusivos para que a própria pessoa com deficiência participe ativamente sendo também protagonista nos processos de criação do seu mundo e ao redor.

Há mercado internacional para a sua iniciativa? Qual seriam outros idiomas interessantes para você?

Sim, existe mercado internacional, com certeza. Temos participado de feiras e eventos internacionais que demonstram um interesse crescente. A Feira Internacional do Livro de Guadalajara é um exemplo concreto, o primeiro convite para participar, em 2014, foi marcante nesse sentido, pois foi o primeiro ano em que a organização previu um espaço especialmente dedicado a livros em braille do qual ficamos honrados em participar, inclusive com mesa de discussão sobre a produção de livros acessíveis; participamos novamente em 2016 e o sucesso se repetiu, constatamos novamente que nem mesmo editoras  grandes e com reconhecimento internacional, tinham livros produzidos similares aos nossos. Sendo que dessa vez, pudemos notar um interesse muito maior por parte do mercado editorial, inclusive da Europa. Fomos procurados por editoras que desejavam conhecer nossos projetos e nossa tecnologia e também por distribuidores.

Por essa razão, estamos empenhados neste ano de 2017 – 2018 em produzir os livros em língua espanhola. Temos um grande mercado a explorar nos países vizinhos. Isso também foi percebido nos dois eventos Micsul que participamos através de prêmios em editais promovidos conjuntamente pelo Ministério da Cultura e Apex, que ocorreram em 2014 e 2016, em Argentina, e em Colômbia, respectivamente. Nesses eventos participaram produtores e compradores da indústria cultural de mais de 12 países onde tivemos oportunidade de conhecer as maiores editoras e distribuidoras atuantes na América Latina.

Coleção Adelia - Três titulos com relevo, texturas e aromas!

Coleção Adélia – Três títulos com relevo, texturas e aromas! (Reprodução).

Fale mais sobre a campanha Adélia Cozinheira que está lançando no Catarse

Somos uma empresa muito pequena que acabou por se tornar editora devido a ânsia por incluir um público diferenciado, ainda não reconhecido como importante e potencial consumidor e como editora ainda poderíamos usar a nossa inovação tecnológica desenvolvida por nós, o Braille.BR® para acelerar essa inclusão.

A oportunidade de realizar a publicação do primeiro livro Adélia em espanhol através do Catarse nasce da identificação de um potencial e futuro mercado editorial inclusivo global, principalmente para os países de língua hispânica, inclusive por facilidades dadas pela proximidade física e similaridade culturais. Desejamos levar nossos livros mundo afora, mostrar ao mercado nacional e internacional que há publico necessitando, querendo livros inclusivos e que vão pagar por eles. Uma vez mais, o design é fundamental para esse novo desafio , pois todos são absolutamente merecedores de ter os meios adequados de acesso à cultura.

Para finalizar, qual seria o recado deixado aos leitores?

Agradeceria muito que conhecessem nossa campanha Adélia Cozinheira – Adélia Cocinera no site Catarse apoiassem e compartilhassem, pois a Coleção Adélia merece e deve estar em todos os idiomas e finalmente, não é apenas um livro, mas um futuro melhor, com mais qualidade de vida, dignidade e inclusão!

A campanha está no ar do dia 24 de abril até 8 de junho.

Veja a campanha do Catarse Adélia Cozinheira

INDIQUE UMA ESCOLA!

Acreditamos no poder da colaboração e doação, não apenas no apoio econômico.

Você sabia que pode indicar uma escola e a cada R$ 500 arrecadados, doaremos um livro inclusivo da coleção Adélia. Veja mais no site da campanha.

 

Trechos da entrevista extraídos de Jornal “O Serigráfico – Comunicação Visual”

Ano XVIII – Maio 2013 – Edição nº 205

 

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