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Desenhando no escuro: Design para quem não  —  ou pouco  —  vê

Um desafio para diminuir outros desafios

OLHOS

Vou fazer um teste com você. Para iniciar, algo essencial precisa ser definido: você é cego. Agora, em suas mãos há dois potes. Em um contém sal e no outro açúcar. Um detalhe: eles apresentam mesma textura, peso e formato. Imagine que você está em uma cozinha preparando um delicioso e aromático café, e precisa adoçá-lo. Em qual dos potes está o açúcar?

Cheirar será, praticamente, a sua única escolha, a não ser que você peça ajuda para alguém. O olfato, assim como o tato, são mecanismos fundamentais para a sua vida, isso porque lhe fazem reconhecer certas estruturas, formas, materiais e produtos.
Neste artigo, busco apresentar um pouco sobre a experiência que eu e meu parceiro de pesquisa tivemos durante o trabalho de conclusão de curso, e, assim, permitir a reflexão sobre um público às vezes esquecido.

Adaptação e eutonomia

Obviamente, os deficientes visuais adaptam-se de inúmeras maneiras. Adaptação e autonomia são palavras em destaque no vocabulário desses indivíduos.

Muitos precisam disso desde cedo, pois já nasceram assim. É o que os especialistas chamam de deficiência visual congênita. Outros, em contrapartida, tiveram que lidar com tal diagnóstico em certo ponto da vida, pertencendo ao grupo da deficiência visual adquirida. A extensão da deficiência também pode ser gradual, ou seja, ao longo do tempo a visão vai diminuindo.

Alternativas de auxílio para um deficiente visual

O desafio, logicamente, está na adaptação. Para os três casos, são reações diferentes. Ganhar autonomia para o que quer que seja, é um passo importante.

Não é só cego

Enquanto eu e meu parceiro de pesquisa nos aprofundávamos para conhecer um pouco mais sobre os deficientes visuais, foram muitas as surpresas. Das grandes mesmo. Particularmente, acho isso fantástico, até porque é um dos brilhos da minha profissão. Um bom designer não impõe nada, ele primeiro entende a situação, para, então, desenhar o problema e projetar algo. Foi o que eu fiz no começo com você, lhe introduzi ao cenário de modo que você pudesse criar empatia para entender o problema. Mas, calma, logo vamos adoçar o café.

A deficiência visual não está atrelada apenas às pessoas cegas. Existem, também, aquelas que apresentam baixa visão, que, por sua vez, limita o campo e o alcance da visão.

Entender a abrangência do termo e as diferenças de cada tipo de deficiência me fez abordar esses indivíduos de forma mais empática e suave. Desenhou um novo percurso a ser tomado e remodelou a minha forma de entender essas pessoas.

De certa forma, às vezes também somos cegos. Mas de conhecimento. Isso é um tanto prejudicial, porque nem ao menos criamos esforços para nos adaptarmos com o mundo. Problema comum, que, esperançosamente, acredito que em algum dia será sanado por uma boa solução em design.

Imersão e aproximação

Tínhamos em mãos um grande desafio: desenvolver um produto para um público que pouco conhecíamos. Roteiro comum na vida de um designer, devo dizer. Mergulhar no desconhecido e trazer achados importantes é o que faz essa profissão ser tão incrível. Ansiedade e medo também fazem parte.

Nossa metodologia seguiu princípios do design thinking e do design centrado no humano. O primeiro, em resumo, busca abordar o problema com empatia e profunda imersão. O segundo, por sua vez, tem como propósito entender as reais necessidades das pessoas. A partir de nossa própria adaptação, seguimos a seguinte estrutura: entender, observar, definir, idealizar e prototipar. Foram fundamentais para entender o público em questão e, assim, tornar clara a problemática.

Estrutura adaptada do Design Thinking

Duas técnicas foram aplicadas: entrevista e sombreamento. Esta última, em específico, não tão conhecida popularmente, visa seguir determinado usuário, a fim de compreender pontos específicos em seu processo de interação com o ambiente, produto etc. As informações provindas dessas técnicas foram reveladoras e valiosas.

Novidade, mas é algo antigo

Como qualquer produto novo que desperta curiosidade, você precisa aprender a mexer. Por exemplo, um celular. Você o analisa fisicamente, entende sua estrutura e conecta essas informações com os da interface do sistema operacional. Aprende gradativamente os gestos e os comandos a serem acionados. Interação gera conhecimento, que gera adaptação. Primeiro ocorre o estranhamento ou uma espécie de subestimação sobre a capacidade do celular. Ao interagir, há a admiração. Por fim, tem-se o impacto de tudo isso: a construção de amizade entre você e o aparelho. Serão amigos inseparáveis.

Um processo muito semelhante acontece na relação entre um vidente (pessoa que enxerga normalmente) e um deficiente visual. Contudo, neste caso, não interagimos com um aparelho, trabalhamos com um ser humano. A deficiência visual não é novidade até você encontrar alguém com ela.

Imagens capturadas durante a entrevista e o sombreamento

Como resultado da entrevista aplicada, percebemos três graus de interação entre esses grupos: (1) subestimação: sem nenhum contato com o indivíduo com deficiência visual e sem nenhum conhecimento sobre esse público, os videntes tendem a encarar essas pessoas com certo receio, imaginando, principalmente, que são incapazes de realizar determinadas tarefas; (2) admiração: com um pouco mais de conhecimento e leve interação, as ações desempenhadas por um deficiente visual são consideradas geniosas; e, por fim, (3) impactação: ao se construir uma aproximação, com alto grau de interação, os videntes são impactados com o conhecimento obtido, de modo a compreender tais indivíduos como iguais a todos.

Graus de interação entre um vidente e um deficiente visual

Ao longo da vida, cada sujeito com deficiência visual aprende a lidar com a sociedade. Os tratamentos que recebe durante esse processo vão, de certa forma, moldar a sua personalidade. O preconceito, infelizmente, ainda existe. Às vezes ele não vem de forma verbal, mas material e estrutural. Uma cidade mal adaptada é um bom exemplo. Calçadas castigadas dificultam o percurso, assim como os obstáculos verticais, que são placas mal localizadas durante o trajeto. Alguns produtos também não possuem diferenciação, tornando a interação mais delicada.

Esses indivíduos aprendem a lidar com esses problemas de formas alternativas, seja pedindo ajuda de alguém, ou até mesmo buscando apoio tecnológico. O cão-guia é uma boa alternativa, mas pouco viável, uma vez que apresenta um custo muito elevado.

Uma maçã ou um tomate?

Curiosamente, você poderia ouvir esta pergunta de um deficiente visual. Para um vidente é fácil diferenciar. No entanto, ambas as frutas possuem um formato quase que similar, sobretudo a textura. Lembre-se, você é cego. Como diferenciar cada uma? Cheirar é a opção que lhe traz mais autonomia.

Os videntes utilizam a visão para diferenciar, classificar e categorizar certos objetos, como uma televisão e um rádio. Um cego, por exemplo, talvez encontraria mais dificuldade para diferir de onde vem o som. Todavia, esses indivíduos criam suas próprias adaptações. Em nossa pesquisa, coletamos algumas fotos. Descobrimos que eles utilizam adesivos de silicone para diferenciar botões e funções. Aplicam, por exemplo, em micro-ondas, máquinas de lavar, entre outros produtos.

O tato é um dos sentidos primordiais para esses indivíduos. Utilizam para se localizar, reconhecer objetos e pessoas e classificar coisas. Os adesivos de silicone foram um achado de grande valia para a nossa pesquisa.

Adoçando o café

Você tem em mãos dois potes com pesos, formatos e texturas semelhantes, e precisa adoçar o café. Agora, você sabe que os deficientes visuais se utilizam de certas adaptações, como os adesivos de silicone.

O que eu e meu parceiro de pesquisa fizemos foi basicamente conectar a necessidade de escolher o pote certo para poder adoçar o café e a informação de que há uma adaptação existente para certos objetos. Analisamos e percebemos que os adesivos de silicone utilizados apresentavam a mesma textura e, em certos momentos, poderiam gerar confusão.

“A solução não é derivada do problema: ela se encaixa nele.” — Vianna et al.

A solução foi o desenvolvimento de adesivos com cores sólidas e texturas em alto relevo, abrangendo tanto indivíduos cegos (com as texturas) quanto os de baixa visão (com as cores sólidas). Uma coleção simples, de 12 adesivos, mas totalmente funcional, de modo a auxiliar essas pessoas a categorizarem e diferenciarem certos objetos. Com um adesivo em cada pote, portanto, você pode, agora, saber qual contém açúcar. Você é quem dá o valor classificatório ao adesivo, escolhendo, por exemplo, um com textura aguda para simbolizar o sal e outro com textura suave para o açúcar. Isso é válido para qualquer outra necessidade: diferenciar CDs, acionar comandos, diferenciar funções e identificar objetos pessoais.

Exemplos de aplicação dos adesivos.

Contudo, ainda há muito a se fazer. Estamos em um processo de esculpir o material. Nosso objeto já não é mais uma pedra bruta, mas ainda não está finalizado. Muitos testes ainda serão necessários, sobretudo muita pesquisa.

A iniciativa de meros alunos de design gráfico em desenvolver um produto acessível aos deficientes visuais gerou bons frutos, além, é claro, de muita felicidade e realização. Apesar de toda a ansiedade e agitação, percebemos o valor de entender verdadeiramente as pessoas e suas reais necessidades com empatia.

O Design é para as pessoas. Com as pessoas.


Referências Bibliográficas

AMIRALIAN, Maria Lúcia T. M. Compreendendo o cego: uma visão psicanalítica da cegueira por meio de desenhos-estórias. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997.

BRYAN, Jenny. Conversando Sobre Deficiências. São Paulo: Ed. Moderna, 1998. 176 p.

SANDES, Liziane Fernandes. A leitura do deficiente visual e o sistema Braille. Salvador, 2009.

HANINGTON, Bruce e MARTIN, Bella. Universal Methods of Design. Beverly: Rockport, 2012.

LUPTON, Ellen. Intuição, Ação, Criação: Graphic Design Thinking. São Paulo: Editora G. Gili, 2013.

LUPTON, Ellen. Novos fundamentos do design. São Paulo: Cosac Naify, 2008.

NORMAN, Donald A. O Design do Dia a Dia. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.

VIANNA, Maurício et al. Design Thinking: Inovação em Negócios. Rio de Janeiro: MJV Press, 2012. 162 p.

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