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O boi de piranha e o pasto verde

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(Foto: Reprodução).

Certo dia, fui chamado por uma agência para desenvolver vários pictogramas para um grande laboratório multinacional. Eles seriam utilizados para um medicamento inovador e de ponta. O briefing era bem claro e deixava muito espaço para ousar no estilo dos trabalhos. E foi o que fiz.

No dia da apresentação do layout, havia várias pessoas na sala, incluindo um diretor de arte da agência e um diretor de produto do laboratório. As pessoas ficaram surpresas com o estilo inovador e ousado proposto. Todos gostaram muito e o clima da reunião era muito positivo. Depois de uns 15 minutos de conversa, o diretor de produto jogou o balde de água fria: o trabalho era belíssimo e inovador mas ninguém da indústria farmacêutica havia feito algo parecido. O trabalho foi feito mas dentro de uma linha absolutamente tradicional e conservadora.

Este episódio ilustra bem o medo que muitas empresas têm de ousar, preferindo permanecer numa espécie de faixa de segurança. Receio de ir além e oferecer algo inédito.

Agindo assim, perdem essas empresas e perde a sociedade, que é privada do contato com aquilo que seria um passo à frente, uma inspiração e a possibilidade de abrir novos caminhos.

Não estou defendendo que todo mundo deva ser ‘moderninho’, colorido e fora da caixa. É possível inovar obedecendo rigidamente os alicerces da imagem da empresa (aliás, aí é que mora o grande desafio!). Falo sobre voltar os olhos para a frente e não tomar atitudes baseadas no medo de mudar e numa falsa ideia de segurança de seguir por um caminho já trilhado. Isso pode até representar uma certa margem de acerto garantido e ilusório mas provocará bocejos e a mesma sonolência e falta de interesse do reprise daquele jogo de futebol que terminou empatado e sem gols.

Quem age assim, se conformando com mais do mesmo e com o lugar comum estará sempre um passo atrás. Estará fadado a se submeter ao rebanho.

É preciso ter coragem. Assumir alguns riscos e acreditar. Melhor correr o risco de correr rumo ao desconhecido em busca de alimento farto do que morrer de inanição por não tentar ousar e ir além.

Em tempos velozes, com informação rica e disponível e com o pensamento das empresas cada vez mais voltado para o design, não ousar não parece uma atitude muito inteligente.

Os “bois de piranha” correm o risco de ser comidos na travessia mas os que sobrevivem, chegam ao pasto verdinho antes do rebanho. Mesmo que levem algumas mordidas necessárias.

Artigo escrito pelo designer Morandini.

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