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Por que eu não trabalho por hora, por Morandini

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(Foto: Reprodução).

Quanto cobrar?
Esta é uma das perguntas mais frequentes feitas por designers em início de carreira e uma dúvida que assombra até mesmo alguns mais experientes.

Dúvida quase existencial, ela tem as respostas mais variadas, que vão desde recorrer às tabelas que pipocam na internet até a cobrança de um valor pela hora trabalhada.

Muitos profissionais recomendam aquela antiga fórmula de somar seu ganho mensal com as despesas do mês e dividir pelo número de horas que você se dedica à labuta a fim de determinar quanto vale sua hora profissional. Há algumas fórmulas até bem elaboradas e com diversas variáveis, mas acredito nelas apenas no âmbito administrativo do estúdio. Elas são boas para aferir o equilíbrio financeiro, mas penso que estão longe de retratar a realidade do nosso trabalho.

Preço, custo e valor são coisas distintas e precisamos ter cuidado na hora de escolher qual deles usar para fazer as contas.

Design não é commoditie (pelo menos não deveria ser). Mais do que preço, o design tem valor e determinar esse valor é essencial para que a relação entre as partes — designer e cliente — seja justa e dê bons frutos para ambos os lados.

E, por que não cobrar por hora?
Ao estabelecer o valor da hora de trabalho, estamos pressupondo que todos os trabalhos serão rigorosamente iguais e consumirão o mesmo número de horas. Na prática as coisas não funcionam assim. Alguns projetos demandam um maior número de horas de pesquisa, de layout e de reuniões. A dinâmica de outros projetos pode ser diferente, mais ágil e mais direta.

Há até quem defenda que o acerto do preço seja feito após a conclusão do serviço, onde as horas investidas no projeto seriam somadas e multiplicadas pelo tal valor/hora. Esse método pode até se aproximar mais da realidade mas deixaria designer e cliente sem nenhuma noção do montante final. E isso tudo se houver confiança de um lado e responsabilidade e honestidade do outro, ou aquela olhada no Facebook fora de hora que o designer deu vai fazer parte da conta.

Cada cliente e cada trabalho são únicos e os parâmetros que envolvem a elaboração de uma proposta precisam ser tratados com todo cuidado: a localização geográfica, o número de pessoas envolvidas na aprovação, a cultura, o porte e o posicionamento da empresa, por exemplo. Todos esses quesitos devem ser cuidadosamente estudados na proposta.

Vai sair na Globo?
Outra questão não menos importante que está extremamente atrelada ao valor, e que não pode ser mensurada pelas horas de trabalho, é a do grau de exposição do projeto. Imagine que você criou uma imagem que será utilizada nas camisetas da festa de final de ano daquele pequeno grupo de escoteiros da sua cidade (não dá para desprezar clientes pequenos, não é?) e gastou 5 horas na criação. Só que no dia seguinte, você recebe um pedido parecido e gastou as mesmas 5 horas no trabalho. Só que o autor da encomenda é um grande banco e a camiseta será entregue como brinde para todos os correntistas, que saberão da iniciativa por meio de uma campanha veiculada em rede nacional no horário nobre. Em tese o trabalho é praticamente o mesmo, mas há algumas peculiaridades que tornam os dois projetos muito diferentes.

Não desprezo o tempo. Acho que é um bem valiosíssimo e cada vez mais escasso. Ele é uma parte importante dentro da minha composição de custos para determinar o valor de uma proposta. Apenas não acho correto utilizá-lo como único elemento nessa composição tão complexa e cheia de nuances.

Valor, preço e custo são coisas muito diferentes. Entender cada uma delas não é a tarefa mais agradável do mundo, mas é tão necessária quanto dominar as outras particularidades dessa nossa profissão.

(C) Morandini

 

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