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Designers, parem de reclamar dos “sobrinhos”. O problema é você, por Paulo Tenorio

(Crédito: Disney).

Não. Não é apenas um título. O problema é você mesmo. Trabalho com design desde 1998. Internet era bem complicada, lenta e bem rara. As ferramentas, Macromedia Fireworks, Adobe Photoshop e o infame/amado Corel Draw estavam com versões bem primitivas. Os PC’s eram terrivelmente lentos. Mais lentos que seu smartphone.

Não existiam védeo tutoriais.
Nem Youtube;
Nem Behance;
Nem Linkedin;
Nem Facebook;
Nem Twitter;
Nem Lynda.com;
Nem blogs sobre dicas;
Nem Tumblr;
Nem We Do Logos;
Nem Freelancer.com;
Nem Odesk;
Nem nada.

Nem o Google.

A melhor forma de se aprender um software em 1999 era lendo o manual ou apertando F1. A melhor maneira de conseguir um trabalho era oferencendo pra quem quisesse pagar ou receber um convite.

Pegar trabalho em outra cidade? Isso era um sonho e tão impossível na época, que tive que mudar de cidade por isso. Te explico mais na frente essa história

O cliente não sabia o quanto valia um folder ou uma marca. Agências cobravam o quanto queriam ou o quanto o cliente estava disposto a pagar por ela. Nessa época, faculdades de design eram raríssimas. Geralmente, desenho industrial ou arquitetura eram as formações procuradas por designers. Eu escolhi administração de empresas.

Estava em Maceió. Minha família estava com sérios problemas financeiros. A faculdade era particular e para ajudar a pagar a mensalidade, eu aceitei trabalhar os dois horários no departamento de informática, como estagiário, ganhando R$150/mês. Isso mesmo. Os dois horários por R$150.

Durante esse tempo gelado no CPD, estudei e muito programação em ASP, PHP, Macromedia Flash e minha primeira ferramenta de design foi o Fireworks. Não passei pelo Corel. Não sabia nem o que era design. Era o infame “sobrinho” . Virei sobrinho por necessidade e pelo acaso do destino. Apesar de cursar administração era design, animação e programação que eu estudava sem parar.

Além disso, tinha que tirar notas acima de 9 na faculdade para poder manter uma bolsa que tinha ganho por ter passado em sétimo lugar no vestibular. Fiz o site da faculdade todo em flash e conectado com banco de dados que dava as notas dos alunos em tempo real, isso era 2000. Fiz ainda design de cartão de visitas, folder, flyers…

Até que um professor me pediu para criar uma apresentação no Powerpoint e eu odiava o Powerpoint. De coração. Então fui para o flash. Usei animação + design + audio + programação juntos. Criei uma apresentação de 3mins para apresentar um plano de negócio para uma empresa imaginária.

E foi assim que dei meu primeiro passo em Motion Design sem saber o que era design direito. Tirei notas 10 na faculdade em todas as apresentações. Os outros alunos gostaram e me pediram para fazer o trabalho deles, cobrar R$50/trabalho. Passava 10 dias fazendo o trabalho, pq eu tinha que pesquisar o assunto, montar a apresentação toda em flash que incluia os botões de passar slide, voltar, exibir em tela cheia. Tudo manual. Tudo pra não usar o powerpoint pq simplesmente não achava o software inteligente nem agradável.
Então criei meu primeiro subistituto do powerpoint quando tinha 20 anos.

Evolui para um XML que dinamicamente carregava as imagens e montava a apresentação super fácil dentro do flash. Exportava em executável e ele abria em tela cheia. Uma professora viu o meu esforço e também o resultado, disse: por que você não monta um studio de animação. Me deu o dinheiro, o incentivo e junto com 2 amigos viramos sócio de um dos primeiros studios de Motion Design do Brasil. Chamado BLOB — Animação gráfica interativa ltda.

E assim larguei o curso de administração para focar no studio. 3 anos de muito trabalho, ralação tomando prejuízo, tentando vender design e animação em Maceió, no ano de 2001. Internet começando.

Eu sobrinho, tinha virado dono de um studio de design. 3 anos depois resolvemos ganhar o mundo e mercado maiores. Mudamos para Floripa. Fomos de carro de Maceió a Florianópolis. 15 dias de viagem de férias após 3 anos sem férias. Viramos todos freelancer e fomos trabalhar pela cidade. 3 sobrinhos no mercado de freelancer. Uma grana no bolso mas não muito. Cada um foi para uma empresa diferente. Freelancers. Sobrinhos.

Isso era 2004. Em 2004, internet já era bem melhor. Me encontraram, gostaram do meu trabalho e me convidaram para São Paulo para trabalhar na Black Maria, uma produtora de televisão.

Encontrei vários sobrinhos talentosos no studio. Trabalhei por mais 2 anos em vários lugares de São Paulo.
Fundei o Brasil in Motion, o primeiro forum dedicado ao Motion Design. 100% gratuito. Até hoje. www.brasilinmotion.org .
Em 2006 uma headhunter dos USA me encontrou e me convidou para trabalhar para uma empresa em Salt Lake City, Utah. E eu, ainda sobrinho, fui parar nos USA.
Lá encontrei dentro da empresa mais outros sobrinhos, incluindo o dono.

2 anos se passaram

O meu trabalho estava melhorando, aprendi 3D, simulação de flúidos, partículas e render de qualidade. Outra headhunter me encontrou.
Me convidou para trabalhar em Hollywood, morar em Los Angeles trabalhando para a Troika. Mandaram passagem, uma limosine no aeroporto e eu ainda sobrinho parti para Hollywood com meu demoreel na mão. Fiquei de freelancer. Um sobrinho freelando em Hollywood.

Passei muito tempo na Roger.tv, lá éramos todos sobrinhos. Sobrinhos coreanos, americanos e de muitos outro lugares. O dono, Terry Lee era um sobrinho. Dropout da universidade de artes.Resolvi voltar para o Brasil por motivos familiares.
Comecei a escrever o livro: Os 7 pilares do Motion Design. Criei um treinamento para ensinar tudo que tinha aprendido incentivado por parceiros.

Criei o Curso de Motion, treinei mais de 200 profissionais, a grande maioria sobrinhos profissionais. Globo, Record, SBT, diretores de arte, designers, editores de vídeo, motion designers. Resolvi ajudar outros profissionais a não tomar canseira nem calote na hora do pagamento.
Investi R$100 mil do meu bolso pra criar um aplicativo pra ajudar outros profissionais a negociar melhor.

Criei o Trakto. Um aplicativo que ajuda a calcular o valor do trabalho e montar uma proposta comercial incrível. Em 1 ano, eu, sobrinho, junto com outros sobrinhos tiramos o Trakto de Maceió e colocamos no Vale do silício nos USA. Virei sobrinho de novo.
Pois agora sou um CEO(chief executive officer) ou executivo chefe.

Um sobrinho executivo de um time de mais de 15 profissionais envolvidos. Sem formação ou experiência em tocar uma empresa de tecnologia.

Como todo sobrinho, venho errando e aprendendo.
Eu fui sobrinho. Eu sou sobrinho e vou continuar sobrinho o resto da minha vida.
Não por falta de conhecimento ou rebeldia acadêmica.
O sobrinho é um WIP, work in progress natural.

O sobrinho é uma condição temporária.
O sobrinho que tá fazendo cagada no design talvez esteja juntando dinheiro para pagar um curso.
Ou talvez só para gastar na balada. Quem sabe… Ele pode ser um péssimo designer mas ainda assim, ele é um designer.

Por mais que você lute contra esse fato.

Mesmo que no Brasil você queira proibi-lo de usar o nome designer. Na internet ele vai ser designer sim. O sobrinho é um resumo de alguém sem formação, capaz de executar o trabalho que supostamente não deveria e tomando prejuízo por não saber cobrar nem negociar. Ganhando dinheiro, mixaria ok, mas ganhando dinheiro fazendo cagada.
O sobrinho é uma persona non-grata.

Saco de pancada para muitos.
Sobrinhos são vistos com péssimos olhos.
Sobrinhos são responsáveis por preços baixos.
Pela “prostituição” do mercado.
Pela péssima qualidade visual das peças.
Sobrinhos representam o que de pior se há no design, um cara sem formação, sem um trabalho legal que ainda cobra barato de mais e vive atrapalhando a vida de todo mundo.
O sobrinho é a personificação da Comic Sans.

Mas será mesmo? Será que a culpa é do sobrinho? Será? Será que é o sobrinho que está fazendo com que a carreira de designer seja tão sofrida no Brasil? Será que a carreira está realmente difícil?

Sobrinho virou a desculpa perfeita para justificar um fato simples: Designers não sabem negociar.
Sei que se você chegou até aqui, vai ficar puto comigo.
Mas calma.
Não quero te transformar em vilão, muito pelo contrário jogar contra, vou te mostrar oportunidades incríveis de crescimento profissional se você mudar o mindset.

A nuvem(tech)/internet mudou o jogo para designers.

Você vende para o mundo inteiro de casa. Isso é uma qualidade rara em outras profissões.

Somos um ecommerce ambulante. Temos a possbilidade de ganhar o mundo usando um laptop.
A quantidade de ferramentas e soluções disponíveis para ganhar dinheiro, pegar jobs e construir uma carreira, negócio ou projeto é quase que incontável.

Isso não é conversa mole. Nem motivacional. Isso é uma realidade. Há trabalho além das fronteiras da sua cidade, estado ou país. Há um mercado gigante, imensurável para designers com pensamento global.

E o que é o pensamento global? é se preocupar menos com sobrinhos e mais em atender globalmente.
Eu fiz meu primeiro trabalho para a Australia em 2002.
Se eu consegui sendo um sobrinho, imagine você.

Então vamos lá! Vamos passar a deixar os sobrinhos serem sobrinhos e vamos parar de coitadismo. Isso mesmo. Coitadismo. Por que quem se nivela por baixo. Hoje dia do designer. Vejo todo mundo postando coisas sobre sobrinhos e sobre tudo de ruim na vida do designer.

Esse negócio de falar mal de sobrinho vende. E blogs, sites, páginas e empresas se utilizam disso para convencer você que ser designer é uma merda, uma merda que vale a pena. Mas não é não. Ser designer é uma oportunidade única de poder ser um profissional global valorizado.

O sobrinho valoriza o trabalho de quem faz tudo direitinho.

Agora me perdoem meus amigos designers que o que eu vou dizer vai doer.

Seu trabalho não é tão bom quanto você pensa. E olhe que eu nem vi.

Ser o gênio incompreendido, o adolescente rebelde que ninguém compreende a profundidade dos seus vetores, cores e brushes é o que está lhe amarrando.
Seu ego está entre você e uma profissão linda e desafiadora.
Só isso. Seu ego faz com que o sobrinho pareça um ser desprezível.

Sua arrogância, quer chegar ao ponto de passar uma lei que proíba os sobrinhos de existirem.

Entenda, novamente: O problema está entre a tela e a cadeira. Isso mesmo. Você é o problema.

Parem de falar mal de sobrinhos. Parem de logo no dia do designer, se nivelar por baixo.
Chega de reclamar. Estamos parecendo os taxistas que reclamam do Uber.

E falo pelo bem da nossa profissão.
Vamos gerar profissionais de verdade.
Vamos transformar designers locais em globais.
Vamos convidar os sobrinhos para se juntarem ao movimento e incentivar que mais sobrinhos entrem no mercado. (serão seus futuros estagiários)
Vamos conversar com os clientes e falar de negócio
Mostrem que não é pelo visual e sim pelo resultado real e que possa ser medido.
Mostrem que design da retorno. Mas mostrem com gosto, com vontade.
Sejam apaixonados pelos clientes.
Negociem sem ego.
Calcule o valor do seu tempo.
Saiba o seu valor.
Aprenda a demitir clientes.
Cliente não quer pagar um valor justo?
Encontre um que pague.
Se não tiver na sua cidade.
Procure no seu estado.
Se não tiver no seu estado.
Procure em outros.
Se seu país ficar pequeno.
Procure na China, nos USA, na europa ou em qualquer lugar.
O mundo é seu e dos sobrinhos também.

Vida longa aos sobrinhos.

*Paulo Tenorio é o novo colaborado do Design Conceitual. As imagens do artigo são de Reprodução.

 

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